maio 29, 2006

ENTERRE OS MORTOS, FECHE OS PORTOS E CUIDE DOS VIVOS

"Aprender a amar começa, inevitavelmente, com separações", afirma o psicanalista Luiz Alberto Py. "No erro e no fracasso de uma relação, temos a idéia do que fazer para acertar na próxima tentativa."

A reconquista da felicidade depende só de alguns rearranjos. O primeiro deles está ligado à aceitação da dor. "É necessário viver a perda, deixar que o luto pela morte do amor tome conta do coração. É ótimo preventivo contra crises futuras", diz Py, que acha preferível a amargura ao limbo das emoções.

Por que é tão difícil vencer uma separação? O filósofo francês Gilles Lipovetski, analisando a importância que se dá ao casamento, concluiu que hoje, mais do que nunca, ele representa uma tentativa de atingir a eternidade. No mundo contemporâneo, em que tudo é volátil, há necessidade de correr atrás daquilo que dura, que marca. Do casamento, decorrem planos de ter filhos e estar acompanhado até o fim dos dias: então, ver a "eternidade" ruída é profundamente frustrante.

O filósofo paulistano Mario Sergio Cortella, autor de NÃO ESPERE PELO EPITÁFIO... (Ed. Vozes Nobilis), traz a discussão para o feminino. "A mulher vive isso de forma mais dura, porque ela foi formada para ser a acolhedora maternal. Na separação, ela se vê como uma fracassada." Na explicação de Cortella, a perda não pesa apenas sobre quem é abandonado, mas sobre qualquer um que vê seu projeto se desfazer. "Quando você perde alguém, vai junto um pedaço de si, um modo de se olhar."

Lembre-se de que você rompeu um casamento e sobreviveu. Se compreender que não se morre disso, estará quase pronta para dar o primeiro passo.", diz o educador Paulo Freire. A psicóloga Beatriz Araújo, terapeuta de casais e de família, sugere que você comece a busca derrubando o mito do amor romântico. "A mulher não pode acreditar que ela só existe porque o companheiro a abastece." É verdade que, numa parceria rica, um desperta as qualidades do outro. "Mas ninguém dará ao par o que ele não tem na sua essência."

"Enterre os mortos, feche os portos e cuide dos vivos." Foi o que determinou o Marquês de Pombal, em 1755, depois de um terremoto em Lisboa. Quando estiver no olho do furacão, lembre-se do marquês. Sepultar os mortos é parar de deplorar a tragédia e de se recriminar por ela. Fechar os portos sugere impedir que novos problemas apareçam enquanto você cura as feridas; é manter o foco na reconstrução. Cuidar dos vivos é tomar conta do presente, ter cautela com o que sobrou, valorizar o que há de bom em sua vida.

(Matéria da revista Claudia: "Sim, existe amor depois da separação" - por Patricia Zaidan)



Minhas vozes maio 29, 2006 12:17 PM | | Comentários (0)